Sou intrigada com os vieses que levam o ser humano a adotar um script essencial de vida. Ninguém é uma rota só ao longo da vida mas claramente cada um configura seu percurso com ênfase maior numa determinada abordagem existencial. A abordagem da acidez é talvez a que mais me dificulta o interlóquio. Fico presa naquela missão vã de mostrar o outro lado, que é tudo que o sujeito ácido precisa para racalcar a amargura do existir e descarregar seu aceto sobre a doce esperança da vida boa. A vida humana é mesmo complexa e no meu critério de justiça a humanidade merecia ser poupada de uma série de vivências dolorosas e injustificáveis ao reles mortal. Olho deste prisma solidário e constato ao mesmo tempo que não conheço sequer uma criatura adulta neste planeta que não se tenha deparado com experiências pessoais dignas de perplexidade e de se perguntar: por quê eu? Dito isto, volto à questão original e fico pensando que nas horas sem cabimento projeto um filminho interno que varia sobre temas recorrentes: sorriso de criança, um abraço caloroso, colo de mãe, cabelo sendo penteado, sensação do balanço ao vento, fumaça de um café fresquinho, mergulho no mar, Chet Baker, beleza, irmão, sexo bom, amigos dando gargalhada, vozes em coro, tudo que representa a força da vida, inclusive a capacidade de transformação de um script, e que para mim é tão maior que o resto. No final, nos resta o livre arbítrio.
Posts de Setembro, 2006

Sintonia
6 Setembro, 2006Escrevi o poema abaixo num dia frio e chuvoso como hoje, em 1999. Tem coisa cuja autorização para publicação demora…
SINTONIA
Sonho adentro,
Paixão aflora.
No caminho que percorrem de mãos dadas
O medo e o desejo
Sob a estrela de azul mais turquesa
Na bruma do açude das fadas
Acima da última nuvem
Do último anjo do infinito
Na curva mais alta da estrada
Mora teu beijo.
Para ter com ele
Enredo lírios nas tranças,
Benzo meu colo com a mais doce fragrância
Unto meus lábios
Com nêsperas cozidas ao mel
E vou, meu vestido de desejo
Esvoaçando por tal rumo inédito
Enquanto um chuvisco miúdo
Borda de cristais meu véu.
Um pardal afinado aponta no céu
E quebra o silêncio do ocaso
Entoando as pistas que faltam
No meu mapa.
Chego.
E tudo o que antes havia
Muda de nome
Nada mais é grande
Diante da imensidão deste encontro
Sintonia que colhe o melhor de mim
E semeia no teu canto
Idéia que flutua no meu dia
Feito ar de inspiração
Teu beijo para sempre
Teu beijo diariamente
Teu beijo imediatamente
Todos os gomos do meu leque
Cada paetê do meu brilho
Marca d’àgua do meu estilo
Linha e entrelinha do meu estribilho
