h1

Renovação

11 janeiro, 2010

É aqui de frente para o litoral do Brasil, o mais bonito do mundo a meus olhos, vendo coqueiro balançar, vendo onda arrebentar, passarinho roubando arroz no restaurante sem medo de ser feliz, gente se apresentando sem achar que há segundas intenções no contato, vendo o lindo rosto do meu filho o dia intero, desfrutando integralmente do aconchego do meu trio dó-ré-mi, bebendo água geladinha com rodelas de limão e folhas de hortelã, jogando frescobol e lembrando da sensação adolescente de ficar de biquini o dia inteiro sem constrangimento, deixando meu cabelo zoneado ao vento, dissolvendo no mar ressentimentos e me desescravizando deles, pensando nas coisas maravilhosas que estão no planejamento de 2010, que renovo minhas energias, agradeço a abundância de vida que me é concedida e imagino um lindo ano novo para todos!

Publico um poema meu para o qual recentemente fiz uma música que está no repertório do meu show com Fernando Caneca dia 26 de janeiro no Salotto (Rua Senador Corrêa, no 10 – Praça São Salvador). Este repertório celebra a influência da composição (letra e música) feminina na MPB.

Bons ventos no meu cabelo
Sou um girassol vermelho
Sou um punhado de fitas
Coloridas do Bonfim
Meu corpo é água tranqüila
Sou arraia e turmalina
Por fora sou brasileira
Por dentro sou bem menina

Sou a moeda de prata
o desejo e o arremesso
língua de fogo rasteira
no curso da madrugada
Meu corpo é solto no espaço
Vestido de bailarina
Por fora sou corredeira
Por dentro sou cristalina

Amanheço pura seda
À tardezinha floresço
A noite cai no meu leito
eu de paixão adormeço
Meu corpo é fruta colhida
Tão logo o dia termina
Por fora sou macieira
Por dentro sou serpentina

PS: aproveito para repassar informação que me foi enviada aqui ao blog sobre a Renda Renascença, um dos meus posts mais comentados: a origem desta renda é européia, possivelmente o contato de mulheres européias com as bordadeiras do nordeste troxeram esta tradição ao Brasil.

h1

Feitios de Oração (ao redor da Lagoa)

29 dezembro, 2009

O ciclista recolhendo um saco de lixo numa pedalada;
O pai pedalando com o filho na garupa;
Um “da rua” trazendo todos seus pertences num carrinho de bebê sucateado;
Missa dominical na Igreja São Jose;
Um pescador consertando sua rede enquanto contempla a barriga da mulher;
Uma caminhante recente ouvindo samba no fone;
O dono e seu cão em comunhão, dividindo um côco;

h1

Palavra

10 dezembro, 2009

Me pego demais à palavra, seu sentido, suas nuances, sua intenção, estética e origem. Adoro as dimensões da palavra e seu impacto fulminante na existência humana. A comunicação não é privilégio humano mas o subjetivo do intelecto aplicado à palavra o é e assim torna-se fator determinante de alegria e pena, redenção e desespero, fé e deleite.

Trocadilhos são o recreio do intelecto, poemas seu ápice. Nenhuma palavra portanto deve ser desperdiçada. Por trás da palavra há um mundo oculto absolutamente sui generis. Com as mesmas palavras finitas do léxico somos capazes de conversar ao longo da vida e surpreendermos uns aos outros com combinações inéditas cheias de novos significados, revelações perturbadoras que tem o poder de mudar o rumo de uma vida num minuto.

Meu filho de seis anos me impressiona todos os dias com novo vocabulário adquirido – descobriu rápido que me apaixono mais por ele a cada novo evento desse. Está terminando o 1o ano do ensino básico, antiga alfabetização ou CA, semana que vem ele “se forma” e há mais de um mês que ando chorosa pelos cantos, sob a emoção dessa 1a. etapa de sua vida cumprida lindamente. Chorosa também pelos 16 milhões de crianças no Brasil que ainda não tiveram essa oportunidade.

h1

Coisa da Antiga

10 dezembro, 2009

Ouvi há pouco esse samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, tão bonito, um clássico da origem negra e seus sofrimentos. Acabei de ler também “La Isla Bajo el Mar” de Isabel Allende, um romance ao redor da formação do Haití então denominado Saint Domingues, sob disputa da França Napoleônica e da Inglaterra colonizadora, tendo a escravidão e suas atrocidades como drama principal.

Já escrevi aqui anteriormente sobre minha infinita admiração por aqueles que nascem com restrições à liberdade e se superam na vida, mantendo o humor, a tenacidade, o pacto com (um fio d)a auto-estima condutora dessa transformação. Do mesmo modo me orgulho muito de ver o Brasil, ex-colônia e 3o. mundo suprimido, apontando agora para um ambiente econômico mais saudável e apto ao prometido crescimento da nação.

Tenho pele branca, sempre fui livre, certamente reflito a história das minhas origens, família, cidade, país. Minha pespectiva pode ser redondamente específica por eu ser “privilegiada” nos meus pontos de partida, exceto talvez por eu ser mulher com aparência de mais nova do que efetivamente sou, inserida no universo corporativo. Fora isso nunca senti que tinha que provar algo vital para ninguém. Nunca me movi por uma raiva atávica, ancestral, por reação a ódio de espécie alguma, me movo mais pelo amor e acredito que isso facilite tudo. Dito isso, manifesto minha discordância pela política de cotas raciais nas escolas e universidades. Concordo com a reflexão que a história provoca e a consequente busca por soluções de mais justiça social, isso sim é praticamente obrigação de um cidadão consciente, que dirá de um governo social, mas não nos termos atuais.

Historicamente tenho evitado discussões “políticas”, não me atrai esse embate. Além disso, sou canceriana: levo aaaaaaaaaaaaaaaaaaanos para formular uma tese e assumi-la com vigor. Mas aqui vai uma tímida pílula anti-cotas raciais.

h1

Febril

10 novembro, 2009

Encontrei com uma amiga de infância muito querida hoje na hora do almoço. Ela me apresentou ao acompanhante dizendo: “ela é aquela amiga que te falei que canta no Arranco, tem disco solo e trabalha na IBM”…
Meu irmão que é consultor na área de capacitação executiva me sugeriu um programa onde eu dê meu depoimento sobre gestão de tempo na vida seguido de um showzinho. Gostei mas ainda não tive tempo de montar e exercitar…
Sonhei que havia um clube dentro do Copacabana Palace no qual de um lado havia uma pérgola com mulheres classudas de Channel e pérolas tomando chá com torradas, crianças rosadas, babás bem uniformizadas. De outro, umas corredeiras com quedas para prática de rafting semi-radical, capacete, botes, coletes, etc.
Eu já ouvi amigas executivas dizendo que sempre sonharam desfilar por aí de tailleur e scarpin, e foi daí que começaram a correr atrás da carreira. Eu nunca sonhei com isso conscientemente, mas desfilo, e agora sonho literalmente com essas damas do Copa…
Eu nunca fui afeita a esportes radicais, até já visitei o rafting do Rio Paraíba do Sul, me diverti relativamente, senti muito frio, não era a minha. Entre um universo e outro, estou mais para a ala Channel mas com estranhezas. O que sei com certeza é que desejo uma ou duas noites no Copa com um programa “all inclusive” qualquer dia desses…
Sabe o curta do meu primo Maurício Lissovsky chamado “A Pessoa é Para o Que Nasce” ?
Ainda me pergunto exatamente para o quê nasci.

h1

Mais Sophia de Mello

18 outubro, 2009

“Perfeito é não quebrar a imaginária linha.”
Fiquemos então no plano da perfeição?

casal-apaixonado

h1

Emily Dickinson

18 outubro, 2009

“Dizem que o tempo ameniza.
Isto é faltar com a verdade.
Dor real se fortalece
como os músculos, com a idade.”

Citação inicial do livro de uma jovem autora brasileira, Tatiana Salem Levy, em seu primeiro romance: A Chave de Casa. A foto escolhida para ilustrar sua biografia me remeteu ao arquétipo da mulher diáfana, lilás, Perséfone na mitologia grega. Folheei o livro e me pareceu lúgubre, aliás o texto declara uma opção pelo viés do sofrimento. Não quis mais lê-lo, impliquei com esse pacto. No entanto a citação acima me causou reflexão…

Uma dor elaborada cria um desvio e não uma supressão, é um afluente do rio principal da vida, corre ali encostado. Uma dor é uma realidade e como tal tem face. Encarar a face da dor nem sempre é uma opção. Pode ser uma necessidade, uma sina. Há quem reserve para a dor o silêncio e a solidão, sofrendo calado. A dor, de um modo ou de outro, não isenta ninguém. A dor pode ser alavanca para a ação ou para a entrega. A dor requer tempo e paciência, e geralmente resignação.

Perséfone

Perséfone

h1

Mar de Sophia

12 outubro, 2009

Ela que é de além-mar, que viveu do mar e sobre ele escreveu poemas tão divinamente lindos, disse:

“As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.”

E dito isto, ainda disse:

“Meio-dia. Um canto de praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasma nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas. “

E antes do fim, disse também:

“Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.”

mar de sophia

h1

Ponte Rio-Niterói

5 outubro, 2009

Cheguei a cruzar a Baía de Guanabara numa balsa de carros (eu era bem pequena …) Na minha infância a ponte significou grande modernidade. Para mim especificamente, significou casa de avós, cachoeiras no pé da serra de Teresópolis com muitos primos e com sopa de legumes na garrafa térmica amarelinha, ônibus escolar a caminho do Paiol Grande – primeiro acampamento da minha vida, competições estaduais de ginástica rítmica desportiva.
Na adolescência, a ponte significou o charme do ingresso universitário, a liberdade de escolha, a noite do Rio de Janeiro, primeiro namorado sério e distante, muito sono versus mãos, beijos e sarros sem perder a atenção ao volante enfrentando as luzes feito um metrônomo ao longo dos treze quilômetros sobre a baía. A baía, na ida, significou sonhos de um futuro promissor, bonança, evolução, e na volta significou recolhimento, proteção, paz. A baía, na ida e na volta, sempre foi pura beleza.
Na juventude, a ponte significou força de trabalho, responsabilidade, a construção do patrimônio, acesso ao aeroporto internacional por meus próprios pés, ilusões e desilusões amorosas com suas respectivas trilhas sonoras amplificadas pelo silêncio e concentração só encontrados na travessia da ponte. Aos 40, perdi a intimidade com a ponte… tenho me aventurado por ela sozinha, atenta aos sentimentos e é tudo meio estranho, confuso, deslocado, triste até. A concentração e o silêncio ainda são transcendentais. A baía continua linda.

ponte-rio-niteroi

h1

Bem Feito!

9 setembro, 2009

cristo redentor

Saí pelo bairro do Jardim Botânico num domingo ensolarado maravilhoso, cheia de lindas intenções de encontrar um kiosk de flores e renovar as plantas da minha varanda pra começar a primavera em alta. Ouvindo música boa, sozinha com meus botões, querendo libertar o espírito, errei no básico indo contra todo um raciocínio de aportar inteligência ao planetinha azul: tirei meu carro da garagem. Peguei um infinito engarrafamento na lagoa, fugi para cair noutro infinito engarrafamento na Jardim Botânico até chegar no kiosk no baixo Gávea sem a mínima possibilidade de uma vaga para estacionar, com treze flanelinhas me alugando, giros e giros em torno da praça. Acabei escolhendo lindas plantas, acomodando tudo com jeito na mala do carro, motivo pelo qual… Mas aprendi a lição: bem feito!